Carmelita deportado – morte

A terceira etapa é a do carmelita deportado pelos nazistas. A partir de 15 de janeiro de 1944 até 2 de junho de 1945, as estações do caminho de cruz do Padre Jacques chamam-se: a prisão de Fontainebleau e o campo de Royal Lieu, próximo a Compiègne, na França; o campo de represálias de Neue Breme, perto de Sarrebrück, na Alemanha; o campo de concentração de Mauthausen e de Gusen, na Áustria; e, finalmente, o hospital de Linz, onde morrerá algumas semanas após a libertação dos campos pelos americanos.

Padre Jacques descobrirá “um claustro com suas próprias dimensões”. Na prisão de Fontainebleau, nasce a seu verdadeiro apostolado: “são necessários padres nas prisões, se vós soubésseis…!”. A um companheiro de cativeiro confia: “Não quero partir, há muitos infelizes, muitos sofrimentos, eu o sinto, é preciso que eu permaneça. Pobre Charles, tu, tu tens família, eu sou sem vínculos, é meu ofício sofrer. Oxalá me deixem meu burel e meu altar”.

Faz de sua cela de prisioneiro um oratório pessoal, mas também um centro de caridade e de fraternidade. Até no pequeno corredor triangular de passeio organiza conversas, como se estivesse no Petit-Collège, no Havre, em Montlignon ou em Remenoncourt. Em 6 de março de 1944, com uma trintena de prisioneiros, é levado em caminhão para o campo de Royal Lieu, perto de Compiègne. Lá também organiza reuniões de oração e conferências para todos, católicos e comunistas. “Não me interessa encontrar apenas cristãos. São os outros que quero encontrar”. Os comunistas aplaudem freneticamente o religioso que, trepado sobre um tamborete, lhes dá aulas de catecismo. Fala de educação dos filhos, casamento, respeito do corpo, sentido da família, papel do Estado, educação e da lei suprema – o amor de Deus e o amor do próximo. Uma centena de detidos de Compiègne se junta a ele todas as noites para rezar o terço.

É então classificado na categoria N.N. (Nacht und Nebel), duas iniciais que indicam o anonimato definitivo ao qual os nazistas condenavam aqueles que precisava fazer desaparecer a todo preço. No fim de março, Padre Jacques é transferido ao campo de represálias de Neue Breme, próximo a Sarrebrück, o campo de morte de onde ninguém devia sair vivo. Ali, o horror da tortura sádica desafia toda imaginação: procissão infernal ao redor de um reservatório durante longas horas, passeio sobre as muretas carregado de uma viga de seis metros sobre os ombros, completamente nu, a proibição de falar.

A cozinha dos doentes é transformada desde que Padre Jacques recebe a responsabilidade por ela. Os enfermos recebem o que esperam: um pouco mais de nutrição e de reconforto moral. Padre Jacques prodigaliza-os com uma tal generosidade e tal esquecimento de si mesmo que até Hornetz, suboficial do campo célebre por seus crimes, está como que rendido. Após três semanas, é deportado a um outro mundo de barracões superpovoados, no campo de concentração de Mauthausen, na Áustria; depois ao campo de Gusen I, um dos campos satélites de Mauthausen. Arrancam-lhe seu hábito de carmelita, que não revestirá até sua morte, e põem-lhe o uniforme listrado dos presidiários. Ele não cruza os braços. Dá tudo: sua nutrição já insuficiente, seu tempo, seu sono. Dá-se a si mesmo até o fim. À imagem de Cristo.

Padre Jacques é o “Profeta do Sentido”, que ajuda a manter-se de pé e permanece livre interiormente, ainda que o corpo esteja agrilhoado, aniquilado. Na prisão e nos campos, mostra seu sentido de combate pela dignidade do homem, pois compreendeu desde muito tempo que o que está em jogo na Segunda Guerra é o sentido mesmo do homem. Como em 1928, quando, durante uma estadia com seus escoteiros na Inglaterra, Padre Jacques pressentira a urgência do ecumenismo, transforma os barracos em verdadeiros laboratórios de ecumenismo. Sob seu olhar de compaixão, os co-detentos tornam-se um grande corpo fraterno. Não há mais judeu nem espanhol, nem francês ou polonês, nem comunista ou católico sob o olhar do carmelita que sulca as barracas onde se concentram todas as raças, línguas, povos e nações e onde a fome, a solidão, a exclusão gravam traços indeléveis nos corpos e nos espíritos.

As diferenças raciais são como pulverizadas pelo sopro de justiça, que o faz buscar a um e outro incansavelmente. Encontra todos, em sua diversidade, sem preconceitos, sem a priori. É uma figura de reconciliação entre judeus e católicos, franceses e poloneses, comunistas e cristãos. Com todos, indistintamente, fala, escuta sua linguagem de gritos sufocados e suspiros exalados. Ele sabe que pertencem todos à mesma pátria: tu sofres, portanto nós somos da mesma raça. Esse homem aceitou, sem se queixar, com resignação e até mesmo humor, os socos e pontapés, os golpes de cassetete e todas as espécies de humilhações sórdidas, tanto em Sarrebrück quanto em Gusen.

Esse homem tinha a força de privar-se das magras rações alimentares para permitir algumas horas a mais de vida ao mais fraco e ao mais jovem que ele. Quantos franceses, italianos, poloneses, judeus, comunistas devem a ele uma porção de pão e a graça de sair vivos daquele inferno! É também o educador que chega aos campos. Seus olhos pousam de imediato sobre os mais jovens, os mais fragilizados. Tem êxito em despertar o pensamento e a reflexão nesse lugar demencial, onde o homem é rebaixado a um objeto. Fala e discute sobre tudo, salvo sobre a morte onipresente.

Esquecer onde estava! Foi o que Padre Jacques conseguiu fazer com certos companheiros de Gusen. Imperturbavelmente, continua seu ofício de professor e, com risco de sua vida, proporciona até livros para os poloneses ou espanhóis. Nesta Babel infernal, apenas nutrido, revestido de trapos, discute o pensamento de Leibnitz com um jovem francês no End Kontroll, a casa onde deve verificar as peças de fuzis durante onze horas por dia. A luta pela cultura intelectual é um ato de resistência tão necessário como alimentar-se.

Esse homem tinha a força espiritual de privar-se dos parcos tempos de repouso, empregando-os em escutar, consolar, reconfortar, confessar depois de doze horas de trabalho extenuante na Usina Steyr. Não vacilou – apesar do medo da corda, da câmara de gás, da forca – em celebrar várias vezes a Eucaristia em presença de seus camaradas crentes e de fazer descer o Cristo naquele lugar de miséria, desafiando todas as proibições, protegido por seus companheiros comunistas, que montavam guarda para escapar à vigilância dos SS. Foi nos campos que respondeu, do mais profundo de si mesmo, a sua vocação de homem de oração. Diziam que “sua presença era a prova do Deus Vivo”.

Esse homem lançou pontes entre o Evangelho e a atualidade do inferno da concentração pela qualidade de seu olhar e do completo dom de si. Esse homem transformou os outros. Deu a resposta do Evangelho, a resposta de Cristo, que se dá até o fim. Salva a fé em Deus, salvaguardando, por outro lado e contra tudo, a fé no homem. Padre Jacques salvou o homem todo. Naquela sociedade carcerária, edificada sobre falsos valores, Padre Jacques permaneceu grande também no interior, quando estava descarnado em seu corpo. Numerosos são os companheiros de detenção que testemunham sua força profética. Anotamos um dos numerosíssimos testemunhos: “Atraía a estima e a confiança, não somente dos crentes como dos adversários, que não falavam dele senão com um profundo respeito, assim como ele fazia em todos os meios sociais. Amava de toda sua alma compartilhar a miséria de seu próximo, ser bom a respeito de todos, amigos ou adversários; popular, ele o foi, tendo em vista a consideração rendida por todos quando caiu doente” (M. Passagez).Entrée du camp de Mathausen

Em 5 de maio de 1945, os americanos libertam o campo de Mauthausen e Gusen. Mas a libertação segue na anarquia. Padre Jacques é requerido pela organização de socorro. Ardente de febre, continua valentemente sua tarefa como presidente do Comitê francês de Mauthausen e trabalha dezoito horas por dia. Pressionado por seus amigos, enfim consente em internar-se na enfermaria de Mauthausen. É lá que as duas enfermeiras da Armada francesa, que se dedicam a repatriar os 1250 franceses sobreviventes de Mauthausen e Gusen, o encontram.

Elas anotam o grito unânime dos co-detentos: “Salvai o Padre Jacques!”. Farão tudo que está em seu poder. Ele quer ser solidário com todos até o fim e, assim, recusa voltar à França graças a um regime de exceção devido a sua condição de sacerdote. Tem cinco recaídas no espaço de apenas um mês. Padre Jacques é transferido da enfermaria do campo, onde ocupa um apartamento privado, ao campo francês de Linz, ao hospital austríaco das Irmãs de Santa Isabel, em um quarto comum e tranquilo, onde suplica: “Para os últimos momentos, deixem-me só!”. A tuberculose avançada ganha terreno rapidamente naquele corpo enfraquecido ao extremo. Na noite de 2 de junho de 1945, Padre Jacques entrega seu último suspiro nas mãos do Criador.

Até o último instante, e mesmo na maneira com que olhará de frente a doença que devia levá-lo, deu uma lição de grandeza, de dignidade, de humanidade. Todos os seus compromissos anteriores encontram sua realização nos campos de horror. Ele foi e é plenamente irmão, amigo, sacerdote, educador, congregador, apóstolo, homem de oração.

Em 26 de junho de 1945, em um radioso dia de verão, Padre Jacques retorna a seu Petit-Collège e os habitantes do Petit-Collège reencontram seu diretor que, dezessete meses antes, tinha-os deixado em um dia glacial de inverno.

Após a cerimônia religiosa, os Padres Carmelitas, em capas brancas, alunos e parentes de alunos, professores, camaradas de deportação, numerosos sacerdotes, autoridades e habitantes de Fointanebleau–Avon acompanham o ataúde de Padre Jacques através do pátio para chegar ao pequeno cemitério do convento, situado contra o muro do castelo de Fontainebleau. Como canto de adeus, entoam, sob o sol radioso, o Hino à Alegria, de Beethoven.

Padre Philippe, tornado provincial, pronuncia uma breve alocução. No momento preciso, diz: “Padre Jacques falava da morte como um dia de luz, animado pelo canto dos pássaros”. Viam-se vários rouxinóis volteando ali perto, sobre o caixão, gorjeando freneticamente. O canto de esperança, enlevando a multidão de corações destroçados, e o canto de alegria dos pássaros, não seriam também a assinatura de Padre Jacques de Jesus?

A criança que já exprime a verdade do dom de si nas pequenas coisas; o adolescente que busca o sentido da sua vida e do seu caminho; o seminarista que busca a verdade através dos estudos como através dos rostos das crianças, verdadeira escola de oração para ele; o adulto que deixa sua vocação de educador e pregador para entrar no Carmelo, onde lhe será pedido, por fim, fundar um colégio; o educador que liberta o jovem, dando-lhe confiança em si mesmo; o carmelita contemplativo sedento do rosto de Deus, buscado na fé obscura: todas essas facetas de sua personalidade deixam entrever um homem habitado por duas paixões – a paixão por Deus e a paixão pelo homem.

Padre Jacques é um ser apaixonado por Deus e pelo homem. Viveu no dom de si até o extremo, à escuta da presença de Deus e à escuta do sofrimento de todo homem. Partilhou: o pão cotidiano para o corpo, o pão do conhecimento para o espírito, o pão da palavra humana e o pão da Palavra de Deus. De uma multidão faminta de pão e de sentido, composta por crianças, jovens, paroquianos, soldados, alunos, resistentes e deportados, Padre Jacques conseguiu fazer dela uma comunidade de mesa e de vida. Padre Jacques é habitado por rostos e nomes incontáveis, por gritos e silêncios inomeáveis.

Para todos irradiou sua felicidade de dar-se, dando sua vida, seu tempo, sua escuta, sua energia, sua inteligência, seu pão, seu espírito. Uma força profética emana de Padre Jacques de Jesus, plenamente homem entre seus irmãos de humanidade; plenamente carmelita, ao lado dos que o precederam na montanha do Carmelo; plenamente testemunha, à imagem de Cristo.

Plaque au mémorial de Yad VashemNo memorial de Yad Vashem, em Jerusalém, Frei Jacques é honrado pelos judeus como justo entre as nações.

O processo diocesano informativo para a canonização de Frei Jacques de Jesus foi aberto em 29 de abril de 1997, na diocese de Meaux (França).