Marrome e Le Havre

Marrone

A primeira experiência de educador na qual o seminarista Bunel trava seus primeiros combates se esboça em Maromme, pequena cidade industrial próxima de Rouen. Lucien tem 22 anos. Está no Seminário Maior de Rouen desde março de 1922 e aí permanecerá até julho de 1924. Durante as férias, ajuda o pároco e ocupa-se com ardor dos filhos dos operários, de cuidar deles até a noite. Organiza um patronato, jogos, passeios, sessões recreativas, tempos de oração e, mais tarde, até colônias de férias. Os meninos sentem a irradiação do seminarista pouco ordinário. Maravilhoso organizador, perfeito ecônomo, nenhum detalhe lhe escapa. Sempre reconhecerá o rosto do Criador no olhar de uma criança. Para ele, “o claro olhar de uma criança de oito a doze anos bem valeria horas de meditação”.

A St Joseph du Havre en 1924

Na Instituição São José (Le Havre), em 1924

Le Havre

A segunda experiência aconteceu na vida do seminarista como uma surpresa. Na volta às aulas do Seminário Maior de Rouen, em 1924, sem que ele esperasse, é enviado como supervisor à Instituição São José do Havre. Deverá trabalhar aí sozinho em seu último ano de teologia. Apesar do sacrifício que a decisão lhe custa, o jovem clérigo se põe com ardor a serviço dos jovens.

Prendado de métodos ativos em pedagogia – confiança, contatos pessoais, educação positiva e construtiva – está à vontade nessa corrente de pensamento, inovadora para a época. Não é um professor ordinário. “A aula?”, testemunha seu amigo Jacques Lefèvre, “era uma conversa à maneira de Sócrates, uma maravilhosa descoberta. As paredes de sua sala são decoradas de modo artístico. Quanto aos alunos, eles reconhecem imediatamente nele ‘um professor de exceção, exigente, original, infatigável’.

Mas o clérigo Bunel não era um maravilhoso pedagogo somente durante as horas de aula, era-o durante todo o dia. Partilhando a vida dos jovens pensionistas, brinca com eles durante as recreações, às vezes projeta alguns filmes de Charlot durante a recreação da noite, leva-os a seu quarto para fazê-los seguir a metamorfose em rãs dos girinos que ele cria ou mostrar-lhes os insetos d’além-mar que os amigos lhe deram. Organiza jogos no bosque e ensina-lhes a admirar as belezas da natureza, sobretudo os pores-de-sol sobre o mar. Organiza visitas à fábrica e ao porto, a abadias e lugares históricos. Mesmo os menos dotados não são deixados de lado. Por toda parte onde passa, quis “colocar o Bom Deus a nosso alcance”, reconhece um de seus alunos. Os meninos se sentem compreendidos e amados. Muitos o procuram como “o amigo ao qual se gosta de confiar os próprios segredos”.

Ordenado sacerdote em 11 de julho de 1925 na Catedral de Rouen, à idade de 25 anos, Lucien Bunel conhece enfim a felicidade sacerdotal, à qual aspira desde muito tempo. De repente, inicia um ministério elevado em cores e rico em encontros que alargam seu leque de experiência, tanto mais que adquire o hábito de responder a todos os pedidos. Chamado frequentemente e sempre respondendo, seu estilo impressiona. Sua irradiação fascina. É inovador, já profético em alguma parte.

Todas as qualidades de educador não permanecem somente no interior dos muros da Instituição São José. Em fevereiro de 1928, Padre Bunel torna-se capelão de uma tropa de escoteiros do Havre. No verão seguinte, a fim de poder levar seus escoteiros para acampar em Plymouth na Inglaterra, vende toda sua biblioteca e adquire livro por livro assim que ganha um pouco de dinheiro. Essa generosidade, assim como a solução rápida que soube trazer às querelas ao redor da tropa, desembocam no resultado que todos apreciam: o jovem sacerdote capaz de partilhar os risos, cantos e brincadeiras, de ter sobretudo um olhar critico e compreensivo sobre a fé, de viver sua fé com simplicidade e literalmente fascinar os garotos quando lhes falava de Jesus.

Um velho camarada escoteiro confidencia: “Padre Jacques mostrou-me Deus na pequena folha de grama que verga sob a joaninha”. O professor fora do comum, o sacerdote sempre de mãos à obra, o pregador infatigável atrai e fascina. “Escutamos olhando-o, porque ele olha além”, diz dele uma mulher de humilde condição. O “sorriso inesquecível”, o “olhar além”, dos quais fala um amigo de infância; o “rádio sobrenatural, irradiando sem cessar em torno dele”, segundo um camarada de regimento tornado amigo íntimo, o jovem sacerdote que aponta a fonte, fazendo imprimir no verso da estampa de recordação de sua ordenação: “Oh! Sim, meu Deus, unir-me tão profundamente a Ti que Te irradie sempre ao redor de mim”.

O jovem padre não faz nada como os outros: busca seu equilíbrio humano e sua plenitude espiritual em outro lugar, que não no apostolado multiforme, entretanto coroado de sucesso. Ele é lúcido sobre o perigo de um ativismo desmedido. Sabe-se habitado pelo olhar de Deus, que parece chamá-lo a outro lugar. O jovem soldado de Montlignon sonha tornar-se trapista. O infatigável padre do Havre aspira a tornar-se carmelita.

Mas a subida para o Carmelo é rude e resvaladiça. A trajetória de um chamado é uma aventura que exige muito tempo e esforço. O que chamamos “antes” ao nível do tempo cronológico é inseparável da resposta que aquele que é chamado dará a Deus, não de uma vez por todas, mas de múltiplas e sempre novas maneiras. Esta resposta é suscitada por encontros e acontecimentos. Clarifica-se e purifica-se especialmente no dom de si.

Pouco a pouco ele descobre, com entusiasmo, que é possível ser monge e apóstolo por meio da secreta alquimia entre contemplação e ação, uma agindo sobre a outra, mas jamais sem a outra. A via que lhe permite encarnar seu chamado na Ordem do Carmelo abre-se, enfim, depois de três anos de dolorosa espera, impostos pela mediação oficial da Igreja – o bispo da diocese, que hesita em deixar partir esse sacerdote fora do comum.

Em 1º de setembro de 1931, o jovem padre do Havre transpõe enfim a porta do convento dos carmelitas de Lille. Corajosamente, deixa o mundo de múltiplas relações para abrir-se a um outro, do qual ignora os contornos, os desafios, os interesses. Entra com olhos fechados, mas com o olhar do coração em alerta, para fazer face lucidamente à realidade, que ilusão alguma vem adornar. “Entrei no claustro perturbado por lutas penosas e o coração em pedaços”, admite ele. Triturado interiormente, ele está seguro, entretanto, de que ali está seu caminho e que deve segui-lo, ainda que lhe custe.

Reveste o hábito do Carmelo em 14 de setembro de 1931 e recebe o nome de Jacques de Jesus. Como prova desse paradoxo, Deus pede ao coração de carne que está em seu peito caminhar corajosamente sobre o caminho da fé nua e do amor cego, do qual surgirá uma dupla paixão: a paixão por Deus inseparável da paixão pelo homem, a quem comunicará o que contemplou.

“A alma carmelitana é ardente de desejos apostólicos e, quando se encerra à sombra do claustro, não é para desertar, mas para trabalhar com melhor rendimento”, diz em uma homilia. “O carmelita descalço está na fonte da vida. Para nossos tempos de carestia, é o coração mesmo da vida que o Carmelo oferece ao mundo e que constitui sua viva atualidade. (…) Os carmelitas são buscadores de Deus. Como Elias, mergulham no silêncio, e como ele, ao longo do dia, ao longo da noite, contemplam a Deus – uma contemplação viva, onde o coração se alimenta de Deus na obscura comunhão da vida mística. (…) Não nos enganemos. Não é a solidão da esterilidade, nem o silêncio da ociosidade! Essa solidão é povoada da rica vida de Deus. O silêncio é pleno da imensa voz de Deus. (…) O carmelita deve interiorizá-los, a fim de que a cela que abriga seus anos de formação se reconstitua misteriosamente na intimidade de sua alma e ele possa levá-la por toda parte onde a obediência lhe ordenar ir” (Padre Jacques de Jesus, A viva atualidade dos Carmelitas Descalços).

Padre Jacques não hesitará em ir aonde a obediência não tarda em enviá-lo!