Introdução

A primeira reação relatada do pequeno Lucien é o sorriso que o bebê dirige a seus pais perto do açude Saint Germain, meta de sua peregrinação. Sorriso de bem-estar dum pequeno corpo que sente renascer nele uma vida que todo mundo, inclusive a medicina, acreditava a ponto de acabar-se; sorriso que responde à oração da Senhora Bunel: “Meu Deus, deixai-o comigo até os vinte anos, depois levai-o, ele vos pertence, mas dai-me a alegria de vo-lo oferecer quando for grande”. Esse sorriso é a expressão da linha diretriz de sua vida, vida que se poderia chamar “imitação de Jesus Cristo”.

La famille Bunel, Jacques est l'enfant de droite

A familia Bunel

Lucien é também surpreendido no sótão, trepado sobre uma cadeira, dirigindo-se sem dúvida a fantasmas, para louvar as belezas e as bondades de Deus. À mãe que o interroga, o menino responde: “é necessário que eu aprenda a falar aos homens”. Marcado com o selo de Deus, o pequeno Lucien já está voltado para o outro em sua busca do Senhor. Sua alma de criança já é uma alma de apóstolo pela palavra. Falará de Deus aos homens durante seu ministério de padre e educador, e até nos campos. Na outra extremidade de sua vida, continuará a dirigir-se a fantasmas humanos, tornados tais pela crueldade humana, e louvará ainda e sempre “as belezas e bondades de Deus”.

O primeiro encontro com o outro marcará profundamente Lucien, quarto de oito filhos de uma família operária de Barentin. Tem nove anos. Brinca com seus irmãos e irmã, quando um mendigo lhe pede um pedaço de pão. Sem levar em conta a claríssima recusa de mamãe Bunel, Lucien corre à cozinha, parte um grosso pedaço de pão, põe-lhe queijo e o apresenta ao mendigo. Este põe a mão sobre a cabeça do menino, dizendo: “Eu sabia, meu pequeno, que tu me darias meu pão; te agradeço, não tenho necessidade, que o Bom Deus te proteja!”.

Lucien insiste e o ancião prossegue: “Não, obrigado, pequeno, teu gesto me basta!”. Ele desaparece em seguida. Este fato permanecerá gravado na memória do menino como um apelo a jamais se fechar ao outro, a fim de que todo gesto de partilha se torne um encontro de corações. Toda sua vida poderia se concentrar no gesto do pão doado: o pão partilhado com o mendigo pelo menino; o pão sagrado que logo o jovem padre terá entre suas mãos e dará a seus paroquianos e alunos; o último pedaço de pão sempre doado aos mais famintos que ele nos campos de concentração; o pão eucarístico, com risco de sua própria vida, nos campos da morte. Sua vida trará a marca do dom do pão. Ela se realizará no dom do pão. À imagem da de Jesus.